O que é looksmaxxing?
a trend que homens martelam a própria cara
Por: Aline Gomes
“Bata nos ossos do seu rosto para esculpir o maxilar.”
“O único objetivo de verdade é ficar mais bonito – não importa o que seja necessário.”
“Seu corpo é a sua propaganda.”
São essas as frases “motivacionais” de alguns homens nas redes sociais pra incentivar outros homens a praticar o “looksmaxxing”, uma trend tóxica da machosfera.
O looksmaxxing nasceu no bueiro da internet e, nos últimos anos, deixou de ser um assunto restrito a fóruns anônimos pra ganhar espaço nas redes sociais, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. A proposta é maximizar a aparência física pra se tornar mais atraente. Mas, por trás dos vídeos com dicas de academia e cortes de cabelo, existe uma comunidade que frequentemente se conecta a discursos misóginos.
O termo surgiu em fóruns ligados à chamada “machosfera”, que são as comunidades incel (”celibatários involuntários”) e redpill. Nesses espaços, a aparência é tratada como uma espécie de moeda social e funciona como uma matemática: quanto mais próximo de um padrão ideal de beleza, maiores seriam as chances de conquistar status, sucesso profissional e relacionamentos.
E como é esse padrão?
Mandíbula bem marcada e angular, queixo projetado, maçãs do rosto altas, nariz reto e proporcional, olhos profundos e com aparência “hunter eyes” (um conceito popular nesses fóruns, associado a olhos mais estreitos e sobrancelhas baixas), corpo musculoso, com baixo percentual de gordura e ombros largos, formando um físico em “V”...
A principal referência dessa comunidade é ninguém menos que Patrick Bateman, personagem interpretado por Christian Bale no filme American Psycho. Apesar de ser um psicopata fictício, o filme é uma crítica à masculinidade tóxica e ao culto à aparência. Bateman acabou sendo apropriado por parte desses grupos como um símbolo do homem ideal: bonito, rico, disciplinado e socialmente bem-sucedido.
Nesse submundo também existe uma hierarquia baseada na aparência
No topo da pirâmide estão os chamados “Chads”, descritos como homens com traços considerados geneticamente ideais: rosto simétrico, mandíbula e queixo bem marcados, corpo musculoso e uma imagem associada à força e à virilidade. Na base estariam os “betas”, retratados por essas comunidades como homens com traços menos marcantes e vistos como inseguros ou menos masculinos. Na tentativa de se tornarem “Chads”, alguns adeptos defendem práticas extremas e perigosas.
Entre elas, a chamada bone smashing (“quebra de ossos”), uma pseudotécnica que promete alterar o formato do rosto por meio de impactos repetitivos, sem qualquer comprovação científica. Em fóruns também há relatos de uso de metanfetamina para suprimir o apetite e de esteroides anabolizantes para acelerar o ganho de massa muscular. Sim, é exatamente isso que você acabou de ler.
Nos EUA esse rolê ficou famoso por conta do influenciador chamado Clavicular, de 21 anos. Ele foi a primeira pessoa realmente famosa a surgir na onda do looksmaxxing. Sua ideologia vai muito além da vaidade comum e permeia toda a sua visão de mundo: para ele, ser bonito é a única maneira infalível de garantir o sucesso e, consequentemente, aprimorar a aparência é a única busca que vale a pena para um homem. Ele aparece frequentemente ao lado de Nick Fuentes, streamer estadunidense reacionário e de extrema direita, e do misógino Andrew Tate, acusado de tráfico humano, estupro e exploração sexual.
Aqui no Brasil, essa lógica costuma aparecer de um jeito um pouco diferente. Em vez de focar apenas em mudanças físicas, muitos influenciadores transformaram a insegurança masculina em um mercado lucrativo, vendendo cursos, mentorias e conteúdos que prometem ensinar como “ser um homem de verdade”, conquistar mulheres e alcançar sucesso por meio de uma suposta masculinidade dominante (leia-se: tóxica).
Esse papo reforça estereótipos de gênero, desvaloriza mulheres e normaliza comportamentos misóginos. Jovens passam a enxergar esses criadores de conteúdo como modelos de masculinidade, aprendendo que ser homem significa exercer controle, demonstrar superioridade emocional, rejeitar vulnerabilidades e tratar relacionamentos como relações de poder.
É importante alertar que esse tipo de conteúdo não vende apenas um estilo de vida: ele contribui para a naturalização da misoginia, da objetificação das mulheres e da violência de gênero. Ao transformar dominação e agressividade em sinônimos de masculinidade, essas comunidades ajudam a perpetuar comportamentos que impactam não apenas quem consome esse conteúdo, mas também as mulheres e meninas que convivem com esses homens no dia a dia.
No fim das contas, a discussão sobre o looksmaxxing também levanta uma pergunta importante: o que crianças e adolescentes estão consumindo na internet? Em uma época em que os algoritmos entregam horas de conteúdo sem pausa, discursos extremistas podem se apresentar como simples dicas de autoestima, um meme ou um viral.
As plataformas têm um papel fundamental na moderação de conteúdos que promovem misoginia, violência e radicalização, e a discussão sobre a regulação das redes sociais passa justamente por esse desafio: reduzir o alcance de conteúdos nocivos. Sem a transparência dos algoritmos, responsabilidade das plataformas e educação digital, a falta de regulação também pode amplificar discursos que transformam inseguranças em lucro e naturalizam violências.








Convivo com alguns pais resistentes a darem celular para os filhos livremente, porém acho curioso (e bem alarmante) como, em uma sala de 30 alunos, praticamente todos os pais acham perigoso o conteúdo aos quais as crianças estão expostas, porém apenas esses alguns, de fato, restringem! De onde vem o contrassenso?
meu homem pode ser barrigudinho, mas acho beeeeem mais lindo