O que é ecoansiedade?
quando a crise climática começa afetar a nossa saúde mental
Por: Aline Gomes
Desmatamento, incêndios, enchentes, calor extremo, frio, mudanças bruscas de temperatura e desastres climáticos. Parece até as trombetas do apocalipse, né? Mas essa é a realidade do nosso tempo.
O risco de emergências climáticas vem sendo apontado há anos por cientistas e especialistas. Não é novidade . Mas as emoções relacionadas ao estado do planeta têm ficado cada vez mais intensas.
Segundo uma pesquisa global publicada em 2021 na revista científica The Lancet Planetary Health entrevistou 10 mil pessoas entre 16 e 25 anos, de 10 países, inclusive o Brasil, e revelou que quase dois terços delas se dizem muito ou extremamente preocupadas com as mudanças climáticas.
Outro grupo mais afetado pela ecoansiedade é o de pesquisadores e profissionais que trabalham diretamente com questões ambientais. Afinal, acompanhar diariamente estudos, projeções e evidências sobre a crise climática faz com que essas pessoas estejam constantemente expostas à dimensão e à urgência do problema.
Mas de onde surgiu a ecoansiedade?
A expressão começou a aparecer na literatura acadêmica ainda na década de 1990, especialmente em livros de ecopsicologia. Mas foi só nos últimos anos, com o agravamento da crise climática e a frequência cada vez maior de eventos extremos, que o tema ganhou projeção.
A ecopsicologia é um campo formalmente estabelecido nos Estados Unidos em 1989, parte da ideia de que a relação entre seres humanos e meio ambiente influencia diretamente nosso bem-estar psicológico. Em outras palavras: não existe saúde mental totalmente desconectada da saúde do planeta.
Mas vale destacar que a ecoansiedade não é considerada uma patologia. Trata-se de uma resposta emocional diante das ameaças e incertezas geradas pela crise climática. A sensação de impotência e frustração surge com a ação insuficiente dos governos e instituições e a falta de consciência em outros setores da população.
Pensa assim: mal terminamos de processar uma notícia e já aparece outra pior. Ondas de calor recordes, enchentes que deslocam milhares de pessoas, incêndios florestais cada vez mais intensos, secas históricas e cidades inteiras lidando com eventos climáticos que antes eram considerados exceção.
Por muito tempo, achávamos que a crise climática parecia uma ameaça distante, um problema para as próximas gerações resolverem. Mas a verdade é que ela já está moldando o nosso presente. A cada novo relatório científico, a cada temperatura recorde, a cada desastre climático, fica mais difícil fingir que nada está acontecendo.
Talvez seja justamente essa sensação de acompanhar uma sucessão interminável de más notícias que ajude a explicar por que tantas pessoas relatam medo, angústia e impotência diante da crise climática. Mas como não se sentir afetada quando o futuro parece estar chegando mais rápido do que imaginávamos?
Embora os desastres ambientais afetem toda a sociedade, eles não atingem todas as pessoas da mesma forma. Para quem vive em bairros com boa infraestrutura, isso pode parecer algo distante ou abstrato. Mas quem mora em áreas de encostas, regiões sujeitas a alagamentos e em moradias precárias, vive os impactos das mudanças climáticas de maneira muito mais intensa.
Uma chuva forte não significa apenas trânsito ou atraso para chegar ao trabalho. Pode significar perder a casa, os móveis, documentos, a renda e, em casos extremos, a própria vida. Uma onda de calor não representa apenas desconforto: para quem não tem acesso adequado à água, ventilação ou energia elétrica, ela se transforma em um problema de saúde pública.
Por isso, quando falamos sobre crise climática, também estamos falando sobre desigualdade social e de gênero. Os países, cidades e pessoas que menos contribuíram para o agravamento da emergência climática costumam ser justamente os que mais sofrem suas consequências. Como populações pobres, negras, indígenas, mulheres, crianças, LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência. É por isso que se fala em justiça climática.
Se liga nesse dado: segundo um relatório da agência beneficente britânica Christian Aid, os dez países com os maiores índices de insegurança alimentar no mundo geram menos de meia tonelada de CO2 por pessoa.
Óbvio que, por se tratar de uma crise global, é importante que a população esteja cada vez mais informada sobre os problemas ambientais. Não dá pra viver em uma bolha alienada do que acontece no mundo. Mas vale lembrar: a solução não está apenas nas escolhas individuais. Separar o lixo, consumir de forma mais consciente e reduzir desperdícios ajuda, mas não resolve sozinho uma crise dessa dimensão.
Tentar diminuir as desgraças que vem junto com as mudanças climáticas também exige ações coletivas, pressão política, investimentos públicos e decisões tomadas em larga escala. Não dá para pedir que uma pessoa salve o planeta enquanto grandes problemas estruturais continuam sem solução.
E não, não existe planeta B. Também não vamos resolver a crise climática fugindo para Marte ou construindo colônias na Lua. Essa narrativa costuma vir justamente de parte da elite da tecnologia que concentra riqueza e recursos. Enquanto eles vendem a fantasia de escapar da Terra, a realidade é que seguimos dependendo deste único planeta. E o desafio continua sendo torná-lo habitável, justo e sustentável para quem já vive aqui.






